terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PARTINDO-SE

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.


João Roiz de Castel-Branco, viveu no século XV, foi fidalgo da corte de D. João II e desempenhou as funções de contador na cidade da Guarda. Dele são conhecidas esta sua trova recolhida no Cancioneiro Geral e uma carta em verso sobre questões de ordem social e moral. Será efectivamente pouco. Mas, a amostra que deixou é de facto genial. Que harmonia, que beleza, que rigor formal e que inspiração encontramos neste pequeno (grande) poema, dos mais belos que encontramos já no fecho do período medieval mas ainda na tradição trovadoresca do amor.

domingo, 10 de janeiro de 2010

HOMENAGEM A RICARDO REIS

Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua,

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), é um dos maiores poetas da língua portuguesa. A sua poesia tem de ser lida com atenta inteligência para que nela se apreenda toda a emoção que intenta transmitir. É um escrita úberima, telúrica que mergulha no mais profundo do nosso ser. Nasceu na cidade do Porto, veio para Lisboa onde frequentou Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cidade onde viveu boa parte da sua vida.
Formalmente, a sua poesia é muito burilada apresentando por vezes um despojamento que só na aparência pode ser entendido como simplicidade, pois toda ela se tece numa tenção dramática entre a contemplação da natureza e um profundo e trágico sentido da vida.
Merece a todos os títulos, com toda a justiça, um lugar de grande destaque na poesia contemporânea portuguesa.



sábado, 9 de janeiro de 2010

AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO

- Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo,
Ai Deus, e u é?


- Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado,
Ai Deus, e u é?

- Se sabedes novas do meu amigo,
aquele que mentiu do que pôs comigo.
Ai Deus, e u é?

- Se sabedes novas do meu amado,
aquele que mentiu do que m'á jurado.
Ai Deus, e u é?

-Vós me perguntades polo voss'amigo,
e eu ben vos digo que é san' e vivo.
Ai Deus, e u é?

-Vós me perguntades polo voss'amado,
e eu ben vos digo que é viv' e sano.
Ai Deus, e u é?

-E eu ben vos digo que é san' e vivo,
e será vosc' ant'o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

- E eu ben vos digo que é viv' e sano,
e será vosc' ant'o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Este belo poema pertence à categoria dos "cantares de amigo" muito usados na Idade Média e que pareciam destinar-se a serem cantados para acompanhar as danças. Tendo um pendor acentuadamente popular, foram também escritos por poetas mais eruditos, como é o caso de D. Dinis, 5º rei de Portugal, que viveu entre 1261 e 1325. Para além da sua beleza poética, tem ainda o valor de ser das primeiras composições escritas em português, pois, no século XIII, os documentos ou eram escritos em latim ou em galaico-português.
O nosso rei D. Dinis parece ter herdado a veia poética de seu avô Afonso X de Castela, também ele poeta e homem de grande cultura.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Regresso

De novo na origem, berço onde me criei.
Onde estão as pessoas que povoaram a minha infância?
Como estão mudadas as ruas e as casas!
A minha memória não coincide com o que vejo.
Já não sou daqui.
Todos me olham como o forasteiro em que me tornei,
Peregrino em busca de um passado de que encontro escassos vestígios.
Melhor... assim posso recordar sem ter que partilhar.
Estar só é uma boa maneira de voltar no tempo.
Vou tentar voltar pelos caminhos da memória,
Percorrendo estas ruas que já mal conheço.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A lua

Eu extasiado com os lunares espectáculos que tenho visto do meu terraço e aparece-me este texto que parece já ter dito o que eu gostaria de dizer.


"Os antigos diriam que o luar é branco, ou é de prata. Mas a brancura falsa do luar é de muitas cores. Se me erguesse da cama, e visse por detrás dos vidros frios, sei bem que, no alto ar isolado, o luar é de branco-cinzento-azulado de amarelo esbatido; que, sobre os telhados vários, em desequilíbrios de negrume de uns para outros, ora doura de branco-preto os prédios submissos, ora alaga de uma cor sem cor o encarnado-castanho das telhas altas. No fundo da rua, abismo plácido, onde as pedras nunca se arredondam irregularmente, não tem cor salvo um azul que vem talvez do cinzento das pedras. Ao fundo do horizonte será quase de azul-escuro, diferente do azul-negro do céu ao fundo. Nas janelas onde bate, é de amarelo-negro"

Bernardo Soares ( Fernando Pessoa),In Livro do Desassossego

terça-feira, 30 de junho de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen - "In memoriam"

Nasceu a 6 de Novembro de 1919 na cidade do Porto e faleceu a 2 de Julho de 2004, esta poetisa que, durante cerca de sessenta anos, marcou de forma tão notável a literatura portuguesa. Poetisa se intitulou sempre, ao contrário de outras que se apelidaram de poetas, assim no masculino. Ela quis sempre sublinhar que a sua poesia emergia da sua matricial condição de mulher.

Cinco anos depois, a sua voz, como profeticamente anunciara, ressoa através dos versos que deixou:

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem me lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

In "Livro Sexto"

domingo, 21 de junho de 2009

Do valor do disparate

Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti

Vergílio Ferreira (1916-1996)

.

Esta afirmação é dita por confirmação de uma realidade. De facto, se há muitos sempre dispostos a afirmarem-se e atingirem o que desejam sem olharem aos meios, há também sempre outros tantos dispostos a acreditarem nos disparates que lhes impingem por mais absurdos que eles sejam. Principalmente neste tempo em que o disparate campeia e em que dominam os que já nem sabem em que consiste dizer a verdade.

Tantos e tão poderosos são os oportunistas, tantos são os tolos que os sustentam, que os homens de carácter quase têm de viver dissimulados numa semi-clandestinidade.

Que tempos estes e que estranhos costumes se instalaram na nossa sociedade.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"Politeia" e Política

A política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é precisa nenhuma preparação
Robert-Louis Stevenson (1850-1894)

A política nasceu concebida como uma missão dos cidadãos que assumiam o encargo de contribuir para a boa gestão das suas comunidades. Assim foi no tempo em que, na Grécia Antiga, a Polis era o modelo de Estado onde se ensaiaram as primeiras experiências de governo em democracia. Se política teve como primeiro significado ser o governo da Polis (Politeia), democracia (democratia) significava o governo pelo Demos, ou seja, o povo.
Depois vieram os primeiros que fizeram da política uma profissão. Porque na sua acção já nada havia de missão, estes foram denominados de demagogos, os que enganam, ou iludem o povo pela arte do discurso.
Transformando a missão de servir o povo na arte de se servirem do povo, estes demagogos mataram a Polis, acabaram com a política no seu sentido original e provocaram a decadência e o fim de uma das mais cultas e humanizadas civilizações que já existiram à face da Terra: a Civilização Helénica.
Hoje chamamos política a uma coisa que nada tem a ver com o governo democrático de Atenas, cidade farol da civilização antiga dos gregos.

domingo, 14 de junho de 2009

O Homem e a Natureza

"O sofrimento é a lei de ferro da natureza"

Eurípides (480 - 406 a. C.)


Eurípides que viveu na cidade de Atenas, na Grécia Antiga, há mais de mil e quinhentos anos, não podia sequer imaginar que o homem, guiado pela sua desmedida ambição, mais do que pela necessidade de garantir o seu bem-estar e sobrevivência, inverteria completamente o sentido da frase que ele escreveu numa das suas geniais tragédias.

Sim, porque o que hoje acontece é que o homem sujeita a natureza a sofrer tais atentados ao seu equilíbrio, impõe-lhe tais alterações através do poder que criou com o seu conhecimento desumanizado das coisas, que existe mesmo o perigo real de poder ser a sobrevivência da natureza que venha a estar ameaçada, pondo em risco a vida do próprio homem.

Assim, hoje, são as leis de ferro que o homem impõe que causam o sofrimento da natureza.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A ingratidão prepotente do presente

Se serviste a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma
Padre António Vieira (1608-1697)
.
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Esta habitual ingratidão é mais dos homens que detêm o poder de decisão do que propriamente das pátrias. Porque, enquanto os poderosos actuam apenas no presente, a pátria, porque intemporal, acaba por reconhecer o mérito. Muitas vezes é apenas uma questão de tempo. Desvanecidas as arrogâncias dos prepotentes, a História baseia a sua avaliação na durabilidade e projecção que os feitos têm no futuro. Os que agem movidos apenas pela intenção de tornarem o mundo melhor e mais habitável, acabam por serem reconhecidos pelo mérito dos seus actos. Pena que, em grande parte dos casos, não puderam ter em vida esse reconhecimento.
Mas há uma certa justiça histórica que prevalece.
Tomemos como exemplo Camões: em vida tão incompreendido e tão desprezado. Mas, que juízo faz da sua obra e pessoa a História e que juízo faz do arrogante e alucinado jovem D. Sebastião que tão altiva e estupidamente desprezou a homenagem e conselho que Luís de Camões com a sua obra lhe prestava?
Camões morreu de pobreza e do esquecimento e desprezo a que foi votado.
Isto escrito um dia depois do dia que leva o seu nome e que se tornou nome de pátria: diz-se dia de Camões simbolizando que é o dia de Portugal que se pretende comemorar. E os escritores da lusofonia recebem como honra máxima o prémio que leva o seu nome.
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O Nobel escritor da língua pátria, José Saramago escreveu este
.
Epitáfio para Luís de Camões
.
Que sabemos de ti, se versos só deixaste,
Que lembrança ficou no mundo que tiveste?
Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos,
Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?

terça-feira, 9 de junho de 2009

Sem comentário

Um político pensa nas próximas eleições; um estadista nas próximas gerações.
Noel Clarasó (1905-1985)

Não dá para comentar. É tão denso o significado da frase que, perante ela, apenas podemos constatar a verdade absoluta que nela se contém.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Cobardia e violência

Quando não se possa escolher senão entre a cobardia e violência, aconselharei a violência

Mahatma Gandhi (1869 - 1948)


Para os que possa ler distraidamente a frase, pode acontecer que, atentando apenas nas palavras finais, sintam alguma perplexidade. Pois, como pode esse grande paladino da resistência pacífica, esse lutador que, durante todas as lutas que travou - e tantas e tão árduas elas foram - sempre usou como arma a passividade e recomendou o não recurso aos métodos violentos que não se respondesse aos golpes com golpes e aos insultos com insultos, venha agora dizer: "aconselharei a violência"?

É preciso fazer uma leitura crítica da frase. Nela não se contrapõe a violência à enorme coragem dos que lutam não respondendo aos ataques, às injustiças, às acções que visam a humilhação da sua dignidade e a ofensa da sua condição de pessoas, com actos semelhantes aos dos seus agressores.

"Quando não se possa escolher", se estiver em risco a nossa segurança, a nossa integridade física, a nossa dignidade moral, então não devemos acobardarmos e, se outra forma de luta não for possível, então só nos restará opor à violência a própria violência para evitar que a prepotência esmague os nossos direitos ou os direitos daqueles que entendemos que temos o dever de proteger.

A atitude dos que pacifica e derminadamente se opõem aos abusos e às prepotências, nunca pode degenerar em cobardia. Só a coragem de lutar garante a defesa dos nossos direitos. Para vencermos na luta contra a injustiça, se outro meio não for possível, podemos ter de recorrer ao uso da violência.


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Prazer e Felicidade


O egoísmo pode tornar-nos felizes durante uma hora ou um dia, mas faz-nos desditosos durante a vida inteira.
Paolo Montegazza (1831-1910)

Não concordo com este dito porque me parece conter uma sabedoria mais aparente do que real. Porque, na verdade o egoísmo não conduz à felicidade mas ao prazer e felicidade e prazer são coisas tão distintas que nunca se devem confundir.
O prazer é insaciável pois que, logo que alcançamos algum já estamos a pretender alcançar mais. A busca do prazer é por condição egocêntrica porque busca apenas a auto-satisfação. Mesmo quando esse prazer é partilhado, não é prazer dos outros que constitui o meu objectivo, pois o que eu busco é a satisfação do meu próprio prazer. Ainda que, masoquistamente, para o alcançar me submeta à dor ou qualquer outra forma de me penalizar.
A felicidade pressupõe a tranquilidade e esta só se alcança pelo equilíbrio que provém da satisfação com o que se tem e que se é, sem a insatisfação de sempre necessitar de se alcançar o que não se tem. E isto não exclui o esforço para continuamente melhorar.
Só pela tranquilidade da minha consciência, obtenho o equilíbrio moral. Só pelo equilíbrio entre as minhas necessidades e os meus desejos, alcanço a tranquilidade de que resulta do meu bem-estar. Só a constante atenção ao bem-estar dos outros me evita o remorso que advém de lhes ter negado auxílio ou de os ter sacrificado aos meus interesses.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pensar e trabalhar

Pensar é o trabalho mais árduo que existe. Talvez seja a razão pela qual há tão poucas pessoas a fazê-lo!
Henry Ford (1863 – 1947)

Frase lapidar, a deste pai da indústria automóvel, na sua capacidade de sintetizar, em tão poucas palavras, uma verdade tão grande quanto prenhe de interesse. Os mais destituídos de instrução tendem a pensar que só o esforço físico é verdadeiro trabalho. Não têm consciência de que, enquanto o esforço físico se resume ao uso da força muscular, o trabalho de pensar exige capacidade intelectual de bom nível, conhecimento desenvolvido dos assuntos pensados, elevada competência para chegar a ideias que sirvam de base para a explicação das coisas ou para a acção.
A prova está na rapidez com que o esforço físico pode ser reposto através do repouso e da maneira como o trabalho de pensar pode, em casos extremos, levar a níveis dificilmente recuperáveis de esgotamento.
Claro que o trabalho de pensar ao mais alto nível só é possível para os que alcançam um elevado patamar de competência intelectual. A maioria das pessoas conseguem apenas cogitar sobre os factos simples e directos que respeitam à sequência rotineira de acontecimentos em que consiste o seu quotidiano viver.

sábado, 23 de maio de 2009

A calúnia

A calúnia é um vício curioso: tentar matá-la fá-la viver;
deixá-la tranquila, leva-a a morrer de morte natural.
Thomas Paine (1737 – 1809)

Tenho dificuldade em aceitar como certa no seu significado esta afirmação. O conteúdo desta frase enquanto pensamento e juízo crítico, incide sobre o que considero um dos mais odiosos e hediondos comportamentos humanos.
A calúnia é construída para que pareça verdade o que se congeminou na consciência plena de que se trata de uma invenção mentirosa. É posta a circular com objectivos ou estúpidos ou nefastos, de forma a gerar o pânico, influenciar atitudes ou ferir a honra, o carácter, a idoneidade, a credibilidade ou a integridade moral de uma ou de várias pessoas, grupos de pessoas ou instituições.
Uma vez posta em marcha, torna-se muito difícil desactivá-la porque haverá sempre tolos e ingénuos, de pensamento primário e pouco crítico, para a aceitarem e se tornarem seus repetidores, promovendo a sua difusão. Apesar disso devemos procurar combatê-la, recorrendo a provas que permitam desmacará-la, tentando desmontar os seus processos e intenções.
A verdade é que não é seguro que todas morram de morte natural. Algumas tornam-se tão persistentes que, mesmo quando já estão esquecidas, persistem os efeitos nefastos, dos prejuízos e das injustiças que provocaram.
Há uma forma simples, certa e segura para combater a calúnia: recusar firmemente repetí-la para evitar a sua propagação.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O medo do erro


“O maior erro que um homem pode cometer é viver com medo de cometer um erro.”
W.S. Hebbard (1863 – 1930)

Por que ao contrário do que alguns parecem pensar, o medo de cometer o erro não leva ao perfeccionismo. O medo do erro tem um efeito paralisante. Muitas vezes torna medíocre a acção e pouco eficaz quem a desenvolve.
O erro é condição de aprendizagem, se considerado como integrando o processo experimental em consiste a nossa vida. Pelo erro posso alcançar a solução que procura, o conhecimento que não tinha, a coragem para prosseguir novas buscas.
O erro só se torna perigoso para a nossa formação e desenvolvimento pessoal, se o não sabemos identificar como tal, se persistimos tomando-o como verdade e coisa certa, colocando-o no lugar que só deve ser ocupado pelo saber comprovado através dos resultados concretos a que formos chegando.
Devemos estar atentos ao erro na condição de que o medo de o cometer não se torne num espartilho que diminui e desvaloriza a eficácia da acção que podemos e devemos desenvolver.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Responsabilidade dos outros nas nossas acções

“Quando um homem começa a responsabilizar os outros pelos seus fracassos, é bom que comece a fazer o mesmo pelos seus sucessos.”
Mark Twain (1835 – 1910)

Porque se não sei assumir a responsabilidade dos actos que cometo e que não são dignos de aplauso, ou não conduziram aos resultados desejados e esperados, se procuro alijar a culpa que nisso me cabe desculpando-me com a culpa que terão tido os outros ou porque me aconselharam mal, ou porque não ajudaram com o seu auxilio ou com o seu conselho, também me devo obrigar-me a fazê-los participar, em igual medida, nos meus sucessos que tiveram êxito. Porque em ambos os casos os outros estiveram presentes. Mesmo quando parece que realizei algo sozinho, nesses actos estiveram o apoio, a ajuda, o saber dos comigo se esforçaram, dos que me incentivaram, dos que me aconselharam e participaram na minha formação, tornando-me apto para fazer bem aquilo que realizei com sucesso.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Duvidar e saber

“A dúvida é o princípio da sabedoria”

Aristóteles (384 – 322 a. C.)

Simples, curta, luminosa, esta frase escrita há de dois mil anos por um dos fundadores da filosofia universal.
Só os imbecis e os que fazem das suas certezas uma atitude perante as coisas da vida, afirmam, propagam e defendem a validade indiscutível dos seus conhecimentos. Porque o homem avisado reconhece a relatividade de tudo o que sabe. Não porque esse saber possa ser ou não verdadeiro. Mas porque, mesmo sendo verdadeiro, ele está sempre em mudança crescente e essa é a condição basilar e o princípio fundamental que garante a aquisição progressiva do conhecimento.
Ai do que não coloca em dúvida aquilo que sabe, porque está a condenar-se, não à sabedoria mas à ignorância, pois que confia em improváveis absolutas e certezas.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O perigo dos desesperados

"Aqueles que têm demasiada esperança e nada a perder são sempre muito perigosos."
Edmund Burke (1729-1797)
Porque a emulação da esperança os anima a grandes, por vezes ousadas acções. Porque a força da utopia os incita a tentarem o impossível. Porque a desesperada situação em que se encontram não lhes deixa alternativa - têm de procurar num futuro inserto a esperança, pois que as limitações do presente os deixam sem solução para os seus problemas.
Fazem mal os que, indiferentes à voz do bom-senso e aos conselhos avisados da prudência, respondem enterrando a cabeça na areia, tornando-se cegos, surdos e mudos à tensão que vai crescendo em seu redor. Não querendo ceder um pouco, acabam muitas vezes por pôr em risco tudo o que possuem.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Da importância da História

"Aqueles que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo"
George Santayana (1863-1952)
A História é a consciência crítica do passado e não apenas o seu mero relato ou descrição dos factos que ocorreram. Por isso a História deve ter um lugar muito importante na formação das novas gerações. A falta de cultura histórica torna os homens incapazes de realizarem projectos que conduzam ao progresso contínuo e ao desenvolvimento das sociedades.
O homem ignorante da História está desprovido da consciência que o impediria de repetir no presente os erros que já foram cometidos no passado. É por isso que se torna tão perigoso colocar o poder de decisão nas mãos dos que não têm o conhecimento necessário para evitarem a tendência para repetirem sempre os mesmos erros.
Quantos recursos são delapidados, quantos esforços estão condenados a serem inúteis, só porque o poder está nas mãos de quem não tem capacidade para decidir da forma mais conveniente para toda a sociedade.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Liberdade - Responsabilidade

"Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade"
Victor Hugo (1802-1885)
Porque liberdade sem responsabilidade conduz ao desregramento, à acção descontrolada, ao excesso, à prepotência, à irresponsabilidade anárquica, à acção sem objectivos, sem limites, sem sentido. Se a minha liberdade deve terminar onde começa a liberdade do outro, então o sentido dos limites é fundamental para definir o carácter ético da minha liberdade. Se todos agirmos de forma responsável, todos estamos a garantir a nossa própria liberdade. É a irresponsabilidade dos prepotentes que constituiu a maior e mais presente ameaça à liberdade de cada um de nós.
Não há garantia de liberdade onde a responsabilidade social não estiver permanentemente presente, assegurando que os limites existem, são respeitados e orientam o sentido dos nossos actos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen - "Obra poética - O Nome das Coisas"

sábado, 25 de abril de 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

sexta-feira, 17 de abril de 2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

sábado, 11 de abril de 2009

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Abril, Quinta 9

Em chinês, a palavra crise é composta por dois caracteres: um representa perigo e o outro, oportunidade
John F. Kennedy

Palavras de um pensamento sábio, pragmático, certo, como todas as coisas simples e profundas que vêm do começo dos tempos.

Perigo porque nos alerta para o que põe em risco as nossas vidas ou a segurança do nosso viver em comunidade. Oportunidade para reflectirmos, tomarmos consciência dos nossos erros, corrigirmos o rumo que escolhemos, ou mudar os objectivos que definimos. Oportunidade para mudarmos de caminho ou mesmo para voltar atrás e recomeçarmos. Porque é sempre melhor voltar ao começo de tudo do que persistir no trajecto que conduz ao abismo, caminhando para a nossa fatal aniquilação.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Abril, Segunda 6

O que sabemos é uma gota de água , o que ignoramos é um oceano.

Isaac Newton



Tantos já o disseram, como aquele sábio homem da Grécia, de seu nome Sócrates, que sacrificou a sua vida para dar como exemplo que só a dúvida constante é o princípio da sabedoria.

Quando alguém lhe elogiou o saber, ele vincou de imediato que talvez houvesse nisso alguma verdade porque, de facto, ele tinha uma forte convicção que nada sabia, ou seja, que nele as dúvidas eram imensas e quase inexistentes as certezas.

Por isso, o que define os tolos é a convicta presunção acerca do seu saber.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Do trigo e do joio

Há searas onde campeia o joio
Onde a foice não entra por não darem pão
Só os rebanhos aproveitam porque apenas para pasto dão

Há terras onde a estupidez impera
Sufocando nelas qualquer lampejo de razão

Assim vives tu
Minha terra
Antes tão uber
Hoje tão estéril
Sufocada sob o mando espúrio que te condena à triste escuridão

domingo, 4 de janeiro de 2009

Eles

Enganas-te!

Atribuis-lhes opinião
E só os move a ambição

Neles nâo há "razão"
Apenas impulsos reles conduzem a sua acção

Vangloriam-se de astutos
Sendo impantes e estultos

Vão cegos na correria
Ignorando que são
"O cadáver adiado que procria"

( Com a devida vénia ao Fernando Pessoa)

sábado, 3 de janeiro de 2009

Aqui - Agora

Nesta pequena pátria
Terra mártir de tanta estupidez
Me conforto
Na memória de tempos passados
E na esperança - tão adiada - do melhor que virá


Para os medíocres o passado não conta
Nem o futuro que não projectam
Só o presente
Apenas um presente mesquinho
Onde se repete a monotonia do seu existir tão limitado

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Muda o ano

Muda o ano
Mas muda a vida?

A vida, essa continua
Sem mudança
A mesma ânsia de que tudo mude.

Mas ganhamos a esperança
Em cada esperança de mudança
E nada muda.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

ORANDO

Nada me dói tanto
como a estúpida maldade dos prepotentes.

A inútil e persistente aleivosia
Que se insidia minando-me a paciência.

A malicia estulta dos gananciosos
destilando o visco da sua malquerença.

A ingerência abusiva desses estranhos
que abusam da minha condescendência.

Oh Deuses eternos!
Imponde-me uma justa penitência.
Mas livrai-me do inferno que os estúpidos são na minha existência.

sábado, 6 de setembro de 2008

PELO TEMPO VAMOS

Setembro que começa
Cairam as primeiras chuvas
Sobre a silente madrugada

Estão maduras as uvas
Começa a azáfama nas vinhas
Colhem-se verdes frutos nos olivais

Como é doirada esta luz
Num Outono anunciado
E castanhos os campos já lavrados

O Sol que acorda cada vez mais tarde
Na aceitação do viver a vida
Pelo tempo vamos

domingo, 31 de agosto de 2008

CONFORMAÇÃO

Aceitemos sem mágua
Que descendo vai
O véu outonal
Do nosso viver

Aceitando
Que deixando de ser
Fogosos amantes
Saibamos ficar
Ternos companheiros
Muito serenos
E nada distantes

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

MOMENTO II

Este calor pesado
Que vai madurando as uvas
Gerando o vinho
Que nos aquecerá
Chegando o frio Imverno
Sufoca-me
Neste final de Verão

Venha a mim o teu império
Natureza-mãe
Força geradora de todas as coisas

Seja feita a tua vontade
Aqui na terra

Reconheço a tua lei
Em assumida resignação

terça-feira, 26 de agosto de 2008

IMPERFEITO EM FORMA DE SONETO

Quieta melancolia
um sol que acalenta
e quase me sufoca
de tamanha solidão

Assim o Verão
do esbraseado sul
ventre gerador
refúgio e terra-mãe

Nesta casa onde regresso
me criei e me reencontro
na renúncia redescubro a quietação

Venho no presente
Ciente do fim pressentido
Em busca do que há muito tempo fui

sábado, 23 de agosto de 2008

RETORNO

De volta ao rotinado
(ou, rotineiro?) viver.

De que se faz uma vida?
Desta rotina rotina infinda
da re-construção do ser?

Do aceitar nasce a serena condição
de ir sendo
realizando

Da revolta,
a angústia
o desespero
a des-construção

Como da busca do prazer
nasce a permanente carência,
só a renúncia garante a quietação.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

REGRESSANDO ...

Volto à casa
nave-mãe de todas viagens

Aqui me construo
e desconstruo

No infindável retorno
da vida que fui
do viver presente

Do que o futuro
me vai permitir

Do que eu
por minha vontade
deixar acontecer.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O BEIJO

Ainda toda quente da roupa tirada
Fechas o olhos e moves-te
Como se move um canto que nasce
Vagamente mas em toda a parte

Perfumada e saborosa
Ultrapassas sem te perder
As fronteiras do teu corpo

Passaste por cima do tempo
Eis-te uma nova mulher
Revelada até ao infinito.

Paul Éluard (tradução de Egito Gonçalves)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

MATARAM A TUNA

Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.

Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.

Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar...)
que eu sabia aquilo de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!

Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha
parecia coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.

Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo as ruas enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!

Meus companheiros do bibe e do pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem nada
mais que o sossego das falas brandas...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!

Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita
despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

Manuel da Fonseca

quinta-feira, 3 de julho de 2008

POIS

O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
ah cabra eram tão puras as minhas intenções.

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.


alexandre o'neill

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O POEMA ENSINA A CAIR

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

terça-feira, 1 de julho de 2008

QUIETUDE

Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente.
A surgir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira.


Miguel Torga

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A CASA ONDE ÀS VEZES REGRESSO

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reuno baldes, este vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entra as mãos e o furor
uma viagen se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça

domingo, 29 de junho de 2008

LIBERDADE

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 28 de junho de 2008

ARDENDO NA SOMBRA

Tu estavas ali
perto da laranjeira.

(Porque havia
uma laranjeira
ao lado da casa.)

Estavas ali, as mãos,
iluminadas.
a luz vinha dos frutos
ardendo na sombra.

A laranjeira
ainda lá se encontra.
E tu? Ainda aí estás?

Ao longe erguia-se a poeira
quando o rebanho
ao fim da tarde
passava - era verão.

Só no verão
a poeira se levanta assim
sem haver vento.

No tanque, um fio débil
de água
servia para nos sentarmos
à beira do seu rumor.

Eu era pequeno
e tu uma mulher triste.
Essa tristeza é ainda
a minha.

Mas só ela.
E a laranjeira.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 25 de junho de 2008

IMPROVISO

Aos ventos que passavam,
Por não poder com elas
Atirei um punhado de palavras.
Se rápidas voavam,
Depressa regressavam
E tombavam
Como no céu, à vezes, as estrelas,
Ou pétalas de flor no chão.

E o meu poema, os ventos o dirão...

sexta-feira, 20 de junho de 2008

"Sacode as nuvens..."

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em porira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que tu respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 18 de junho de 2008

D. SEBASTIÃO, rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O ESPIRITO

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impernanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me osfuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica, Não falto.


Natália Correia

sábado, 14 de junho de 2008

AMADOR SEM COISA AMADA

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
Não chego a profissional.

António Gedeão

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado –
Jaz morto e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino de sua mãe”.

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço … Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece,
O menino de sua mãe.

Fernando Pessoa, Cancioneiro.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

ANTO

ANTO

Caprichos de lilás, febres esguias,
Enlevos de Ópio – Íris-abandono…
Saudades de luar, timbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias…

O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento das carícias magoadas;
O príncipe da ilhas transtornadas –
Senhor feudal das Torres de marfim…

Mário de Sá-Carneiro, 1915

segunda-feira, 9 de junho de 2008

10 DE JUNHO

Minha Pátria portuguesa,
Minha Terra atribulada,
Capaz de tanta grandeza,
Tantas vezes humilhada.

Esta gente que eu venero,
Este Povo sofredor,
Entre a glória e o desespero,
Quanta ilusão, quanta dor.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

DE TARDE

Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde (1855-1886)

terça-feira, 3 de junho de 2008

A LOIRA

...
Como a folha que a corrente
No torvelinho levou
Como a luz do sol poente
Que o mar ao longe apagou
Como um canto que morreu...
Assim sou eu.

Como a flor que desabrocha
Bela, vivíssima e pura,
N'alguma fenda da rocha,
O seio estéril e nú...
Assim és tu.
...

Narciso Lacerda, 1880

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O OBJECTO POSSÍVEL

(...)
feita de som
e coisa nenhuma
a bruma nasce
da lenta combustão
da plaina ou pluma
no papel da árvore
ou na resina que estua -
há saliva e há talvez prece
há de certo suada pele
na mão que escreve
direita à tua
(....)

António Silva Pereira, 1980

domingo, 1 de junho de 2008

VELA

Em redor da luz
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada

Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada

Em redor da chama
Que menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda

Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece os seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e esplendor

Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 28 de maio de 2008

ESTA GENTE / ESSA GENTE

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Ana Hatherly

terça-feira, 27 de maio de 2008

[PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO: NADA]

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas flebilmente sobre a colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
O que vivi? Era tão bom dormir!

Álvaro de Campos

domingo, 25 de maio de 2008

CIDADE

Na cidade, quem olha para o céu?
- É preciso que passe um avião...
Quem me dera o silêncio, a solidão,
Onde pudesse, alguma vez, ser eu!

Na cidade nasci; nela nasceu
A minha dispersiva inquietação;
E o meu tumultuoso coração
Tem o pulsar caótico de seu.

Ah! quem me dera, em vez da gasolina,
O cheiro da terra húmida, a resina,
A flores do campo, a leite, a maresia!

Em vez da fria luz que me alumia,
O luar, sobre o mar, em tremulina...
- Divina mão compondo uma poesia.

Carlos Queiroz

sábado, 24 de maio de 2008

IMPROVISO

Aos ventos que passavam,
Por não poder com elas
Atirei um punhado de palavras.
Se rápidas voavam,
Depressa regressavam
E tombavam
Como no céu, às vezes, as estrelas,
Ou pétalas de flor no chão.

E o meu poema, os ventos o dirão...


José Régio

sexta-feira, 23 de maio de 2008

ESPERANÇA

O poema quer nascer das trevas.
Está nas palavras, e não as sei.
É como um filho que não tem caminho
No ventre da mãe.
Dói,
Dói,
Mas a negar-se teimosamente
A todos os acenos libertadores
Do desespero dilacerado.
No silêncio cansado
E paciente
Canta um galo vidente.
E diz que cada dia
Que anuncia
É sempre um dia novo
De renovo
E poesia.

Miguel Torga

quinta-feira, 22 de maio de 2008

DILETANTEMENTE

este caso
por acaso
concordante
com o atraso
dilatado
doutro caso
foi a causa
doutra coisa
discordante
duma outra
arrelia
massacrante

Faustino Martins

quarta-feira, 21 de maio de 2008

GESTOS

Lentamente
aproximou a mão.
Colheu um fruto.
Com gestos ancestrais
retirou-lhe a casca.
Levou-o à boca,
enquanto a língua
pesava o gosto
maduro e denso.


Tudo fazia sentido.
Tudo estava certo.

Como um saber
antigo,
exacto.

Faustino Martins

terça-feira, 20 de maio de 2008

PRIMEIRO POEMA

Sem horizonte ou lua,
sem vento nem bandeira.
L. von Maaske


A palavra, vida inteira, mata.
O seu silêncio não fala nem cala: ri.
Sem antes, nem depois, nem agora.
É o infindável que fala.
Não o ouças: ouve-o.
Oh, falar sem ouvir,
como ri o riso
pleno dos mortos,
os meus e os teus mortos
debaixo de nós.

Manuel António Pina (1943)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

CANÇÃO

Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!

Fernando Pessoa

domingo, 18 de maio de 2008

AS ÁRVORES E OS LIVROS

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

Jorge Sousa Braga (Herbário – 1957)

sábado, 17 de maio de 2008

PROVINCIANAS

Mas nem tudo são descantes
Por esses longos caminhos,
Entre favais palpitantes
Há solos bravos, maninhos,
Que expulsam seus habitantes!

É nesta quadra d’amores
Que emigram os jornaleiros,
Ganhões e trabalhadores!
Passam clãs de forasteiros
Nas terras de lavradores.

Tal como existem mercados
Ou feiras, semanalmente,
Para comprarmos os gados,
Assim há praças de gente
Pelos domingos calados!

Cesário Verde

sexta-feira, 16 de maio de 2008

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O VIANDANTE

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
Caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 14 de maio de 2008

À MÚSICA

Melodia, melodia …
Como é simples e tu vens!
Como nasces da harmonia
Das formas que nunca tens!

Como vive a eternidade
Na fugidia presença
Da tua realidade
Irreal logo à nascença!

Não se vê quem te levanta
Nem quem tece o teu destino;
Mas alguém te desencanta,
Te revela e te faz hino
Do nosso amor, melodia!

Vai cantando!
Vai passando e vai durando,
Asa branca deste dia!


Miguel Torga

À MÚSICA

Melodia, melodia …
Como é simples e tu vens!
Como nasces da harmonia
Das formas que nunca tens!

Como vive a eternidade
Na fugidia presença
Da tua realidade
Irreal logo à nascença!

Não se vê quem te levanta
Nem quem tece o teu destino;
Mas alguém te desencanta,
Te revela e te faz hino
Do nosso amor, melodia!

Vai cantando!
Vai passando e vai durando,
Asa branca deste dia!


Miguel Torga

terça-feira, 13 de maio de 2008

A PEDRA

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.

António Ramos Rosa

segunda-feira, 12 de maio de 2008

QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 11 de maio de 2008

NAVEGAÇÃO SEGURA

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,


pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de maio de 2008

SE EU PUDESSE BEBER-TE

Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tecê-las

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de Junho!

Natália Correia

quarta-feira, 7 de maio de 2008

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela tivesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo

terça-feira, 6 de maio de 2008

LETREIRO

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

Miguel Torga

sábado, 26 de abril de 2008

POEMA

Ai, há quanto tempo eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar! ...
Foi há vinte? ... Há trinta? Nem eu sei já quando! ...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!
-----
Canta-me cantigas, manso, muito manso ...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar ...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar! ...

Guerra Junqueiro, do livro Os Simples, de 1892

quarta-feira, 23 de abril de 2008

DECLARAÇÃO

Teorias são brinquedos
Que, por mim, não tomo a sério.
Tomo a sério os meus enredos.
Crer ...só sei crer no Mistério.
De doutrinas não me importo!
Sinto-me bem no mar alto.
Só me recolho ao meu porto.
Convidam-me e sempre eu falto.
De escolas, não sou aluno.
Se comunico é em verso.
Sou muito diverso,
E uno.

José Régio

quarta-feira, 16 de abril de 2008

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andalusa ...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!


Mário de Sá-Carneiro

FIM

Mário de Sá-Carneiro

domingo, 13 de abril de 2008

OS ARES

Os ares
como são furtivos

Como os diria
calmos
quando não faltam
na respiração

Quando são
vento melhor
que o pulmão
que o calor

Respiram consigo
os ares claros
movem a vida
raros

Ares densos não são esses
para quem sente denso
o coração

Chamai-lhes vento
e claramente os ares
são roucos
se então
eles trespassam
a pele da boca

Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, 8 de abril de 2008

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são de noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 7 de abril de 2008

SONETO DO REGRESSO

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levo-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longíquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

Carlos de Oliveira

quinta-feira, 3 de abril de 2008

MAR SONORO

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailado do meu sonho,
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 31 de março de 2008

METAMORFOSE

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se refectem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter ...
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.


Jorge de Sena

quinta-feira, 27 de março de 2008

NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,
Em cada pausa e pulsação um verso.

Vitorino Nemésio

quarta-feira, 26 de março de 2008

FICÇÕES DO INTERLÚDIO / ODES DE RICARDO REIS

14-2-1933

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

2-3-1933

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo o que vem é grato.

Fernando Pessoa

terça-feira, 25 de março de 2008

ALENTEJO

Outro é o tempo
outra a medida.

Tão grande a página
tão curta a escrita.

Entre o achigã e a perdiz
entre chaparro e choupo

tanto país
e tão pouco.

Manuel Alegre

segunda-feira, 24 de março de 2008

MOMENTO

Quem, nos meus olhos ardentes,
Na minha testa cansada,
Perpassa os dedos clementes,
Poisa a mão fresca orvalhada...?

Talvez a brisa da tarde,
Que passa e não faz alarde...

Talvez a brisa da tarde!

Sim, só a brisa; e mais nada.

José Régio

domingo, 23 de março de 2008

PUDESSE EU

“Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
P’ra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.”

Sophia de Mello Breyner Andresen


Ter a consciência dos limites não é conformar-se na pequenez duma frágil condição.
É a assunção plena da humanidade duma vida que constantemente nos coloca perante novas opções, algumas delas não possíveis ou, pelo menos, não desejáveis.
Porque não somos deuses, devemos escolher. Não escolher é assumir o orgulho louco de pretender alcançar o que só é possível na imaginação ditada pelo sonho.
Devemos aceitar o sonho, mas temos o dever de optar com base na razão.

sexta-feira, 21 de março de 2008

HOMEM

“É no silêncio do caminho aberto:

Quanto maior a alma maior o deserto
Maior a sede e a miragem
Do mundo à nossa imagem”

Luís Veiga Leitão



O homem é a única medida certa para definir com precisão a grandeza e o valor da vida.
Só no homem encontramos a ideia da imensidão do universo e a crença na eternidade dos deuses.

quarta-feira, 19 de março de 2008

OS DEUSES

"Nasceram, como um fruto, da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem."

Sophia de Mello Breyner Andresen


- Não há como duvidar de que os deuses existam.
Mas a dúvida poderá, inevitavelmente, recair sobre se deles teve origem tudo o que existe, ou se foram criados à imagem e semelhança do pensamento dos homens.

segunda-feira, 10 de março de 2008

ATITUDE

Acaba com a imoralidade de veres apenas defeito na acção dos que não merecem a tua estima.
Torna a tua critica grande, generosa, civilizada e civilizadora.
Censura frontalmente o mal, mas aplaude com igual intensidade o que te parecer bem realizado.
Acusa as faltas, mas não as inventes com intenções caluniadoras.
Não te alegres pelos erros dos teus adversários; pois que é mais nobre concorrer para que eles se emendem, do que procurar motivos para uma constante censura.
A mais nobre das atitudes é sacrificar o amor próprio, as antipatias pessoais e, sobretudo, o desejo embriagador de vingança, aos valores mais elevados da verdade e do dever de ser justo.