sábado, 28 de junho de 2008

ARDENDO NA SOMBRA

Tu estavas ali
perto da laranjeira.

(Porque havia
uma laranjeira
ao lado da casa.)

Estavas ali, as mãos,
iluminadas.
a luz vinha dos frutos
ardendo na sombra.

A laranjeira
ainda lá se encontra.
E tu? Ainda aí estás?

Ao longe erguia-se a poeira
quando o rebanho
ao fim da tarde
passava - era verão.

Só no verão
a poeira se levanta assim
sem haver vento.

No tanque, um fio débil
de água
servia para nos sentarmos
à beira do seu rumor.

Eu era pequeno
e tu uma mulher triste.
Essa tristeza é ainda
a minha.

Mas só ela.
E a laranjeira.

Eugénio de Andrade

Sem comentários: