segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A roupa envolve-nos


A roupa envolve-nos
a paragem do mar cresce contigo
a língua e o sentido tudo anda
tão ocupado tão cansado e destruído
que a roupa em
torno morre como um foco de ruído

O movimento cerca esta mudez
o mar desidratado é o abismo
onde revives
Viste os vales instáveis do mar
mas para que é perguntar senão que se fez de ti
O fogo sob as vozes que não ouves
A língua vive ainda?

Inscrevo na memória tumefacta
mais uma imagem
Esses corpos nascem
O que posso dizer para cobri-los?
Ouves? Está comigo
a mortalidade da tua vida

Como falar contigo? Mas o som
produzido era tanto
que as cordas se formavam com a sua saída
retomavam a forma destruída
enquanto
tudo o que te dizia dividia
um som tempestuoso

Na ocasião da queda
desses algum
olha as áreas correspondentes no mar
volta transforma-se
é um sinal de
contradição
e sob a chuva contínua de relâmpagos revive

Porém o som inibe-te prossegues
sem segurança o canto a turva cítara
vence-te não o canto repetido
Essas cordas do peito já distensas

submetem-se ao silêncio poderias
escolhê-las porém sempre repetes
os nomes desses corpos a mudez
intimida-te assim a poesia

nasce com o rumor dos próprios corpos
com o bater dos nomes entre os ombros
tão dóceis mar de músculos

mudos
o coração do corpo
repetindo os nomes turvos

Como é possível termos esquecido a linguagem?
Comparámos os corpos Se os descrevo
agora que deixámos de falar
esqueço a igualdade e nela cessa
a possibilidade de falar

É um erro a cidade alguma vez a
cantaste?
Mas já não é possível a verdade é que
definitivamente nela morres
Por isso escolherás o teu estilo
de novo por palavras errarás

Na praia exterminada não pudemos
cantar a liberdade
sobre o teu corpo correm turvas asas
de entre as pedras
levantas a cabeça enquanto cais

Depois a roupa gera e espalha a escuridão
cada corpo isolado se transforma
sob as asas que
o cobrem

Desencontramo-nos
a terra recomeça a deter-te
preciso de dizer
esse teu nome
Mas não ouças a minha fala transformada

Gastão Cruz
Poesia 1961-1981

Gastão Cruz nasceu em 1941, na cidade de Faro, no Algarve, e licenciou-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em Filologia Germânica.
Professor do ensino secundário, exerceu paralelamente, entre 1980 e 1986, a carreira de leitor de Português no King's College de Londres e dirigiu, nos anos 70 a 90, o grupo de teatro Teatro da Graça que ajudou a fundar.
Ainda muito jovem, com apenas 19 anos, Gastão Cruz, manifestando já um grande apego pelo texto poético, publica o seu primeiro livro, A Morte Percutiva, no volume colectivo intitulado Poesia 61, que compila textos de uma plêiade de cinco jovens poetas: Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta.
Na sua obra, perpassam temas diversos como a dor, a metamorfose, a guerra colonial (Outro Nome e Aves), a morte (Pedras Negras).
 Autor de uma obra muito diversa, publicou, entre outros, os seguintes títulos: A Morte Percutiva; A poesia Portuguesa Hoje, 1973; Campânula, 1978; Orgão de Luzes; Transe (1960-1990); As Pedras Negras, 1995; Poesia Reunida, 1999; Crateras, 2000 que recebeu o Prémio D. Dinis.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

SO-NETO JORGE, Luiza

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos-íntimos, insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a distância, com os oásis, finda;

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luiza Neto Jorge
O Amor e o Ócio

Luísa Neto Jorge nasceu em Lisboa, em1939. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi fundadora do Grupo de Teatro de Letras, mas desistiu do curso e foi viver para Paris, onde permaneceu durante oito anos (1962-70). Viveu do seu trabalho como tradutora e foi uma grande poetisa portuguesa. É considerada a personalidade de maior destaque do grupo de poetas que se reuniu em torno do movimento Poesia 61. Morreu em Lisboa em 1989, pouco antes de completar 50 anos. Em 1993 foi coligida a obra completa.

domingo, 28 de novembro de 2010

Vida



Vida:
sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
cujos passos são horas
cadenciadas
rítmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos
que me roçam a pele
e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais».
Vou seguindo teus passos
lutando e sofrendo
cantando e chorando
e ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
Meu suplício de Tântalo.
Envelheço...
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
À punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras
na floresta milenária do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
minha carne dorida.
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse fica escancarado no ar!
Olímpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
Caio suado de borco
no lodo...
O vento da noite badala nos ramos
sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
Tenho medo, grito.
Creio em Deus e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vêm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
— maldita selva, maldita selva,
antes o deserto, a sede e a morte!

Manuel da Fonseca, in "Rosa dos Ventos"

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Regresso

E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

 
 Manuel Alegre

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ruy Cinatti

1. Praia presa...

Praia presa, adiantada
no mar, no longe, no círculo
de coral que o mar represa.
Praia futura invocada.
Timor ressurge das águas,
praia futura invocada.
 
2. De monte a monta...
De monte a monta, o meu grito
soa, soa, como voz
de um eco do infinito
ecoando em todos nós.

Timor cresce como um grito
ecoando em todos nós.
3. Perdi meu pai...

Perdi meu pai, minha mãe. Estou só,
ninguém me escuta,
senão quando querem dar
os restos que ninguém quer.

Pobre de pobre, só tenho
os restos que ninguém quer.
 
4. Entrei pelo mar...

Entrei pelo mar mulher
açudado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.
 
5. Agarrei no ar...

Agarrei no ar um véu
esmaecido de azul,
igual ao azul do céu
iluminado pela lua.

Eu passo a vida a sonhar
iluminado pela lua.
Ruy Cinatti nasceu em Londres, em 1915 e faleceu em 1986.
Em criança veio para Lisboa onde se formou em Agronomia. Foi meteorologista, secretário do governador de Timor, onde viveu durante alguns anos após a II Guerra Mundial, e chefe dos Serviços Agronómicos de Timor e investigador da Junta de Investigação do Ultramar. Estudou na Universidade de Oxford onde se doutorou, em 1961, em Antropologia Social e Etnografia.
Foi co-fundador em 1940 de "Os Cadernos de Poesia" e em 1942 da revista "Aventura". Recebeu o Prémio Antero de Quental em 1958, pela obra "O Livro do Nómada Meu Amigo", o Prémio Nacional de Poesia, em 1968, pela obra "Sete Septetos" e o Prémio Camilo Pessanha, em 1971,com "Uma Sequência Timorense".

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Tenho uma Saudade tão Braba



Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"



Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva nasceu nos Açores (Ilha terceira) em 1901.
Em 1922 concluiu o liceu em Coimbra, ingressou na Faculdade de Direito. Em 1924 abandonou o curso de Direito e matriculou se na Faculdade de Letras, em Ciências Histórico-Geográficas. Em 1925 optou definitivamente pelo curso de Filologia Românica e foi nesse ano que surgiu o jornal "Humanidade" (quinzenário de Estudantes de Coimbra), tendo sido Nemésio o seu redactor principal. Nesse jornal colaboraram, entre outros, José Régio, João Gaspar Simões e António de Sousa. Em 1926, fundou e dirigiu com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima, o jornal "Gente Nova" (jornal republicano académico) e a partir de 1928 passou a colaborar na revista "Seara Nova".
Foi um dos mais distintos e consagrados professores universitários do seu tempo, primeiro em Coimbra e depois em Lisboa. Como grande comunicador teve notáveis intervenções na rádio e na TV. Deixou uma extensa obra, do mais alto valor, como poeta, romancista e ensaísta. Colaborou em muitos jornais e revistas, tendo, desde a sua juventude, fundado várias publicações literárias. Entre outras línguas, as suas obras foram traduzidas em italiano, francês, inglês e alemão,.
 Vitorino Nemésio faleceu em Lisboa, em 1978, e foi sepultado em Coimbra.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Um Fado: Palavras Minhas



Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”



Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934. Estudou Direito na Universidade de Lisboa. Foi director da Editora Moraes e depois, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também dirigente cine-clubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades. Fez crítica literária no semanário Expresso. Foi presidente do P.E.N. Clube Português . Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores. Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.
Desenvolveu uma intensa actividade de tradutor literário. Obteve em 1990 o Grande Prémio da Tradução. Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust.
A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias, encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente, em 2006, publicou um novo livro Analogia e Dedos e, em 2010, O Livro do Sapateiro. Foi muito premiado como poeta.

sábado, 13 de novembro de 2010

DESCOBRINDO ... Fernado Pessoa (1888 - 1935)

Hoje de manhã saí muito cedo

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

                    Alberto Caeiro
 
Pessoa criou uma biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição na sua poesia, como podemos observar nos 49 poemas da série O Guardador de Rebanhos. Segundo Pessoa, foram escritos na noite de 8 de Março de 1914, de um só fôlego, sem interrupções. Esse processo criativo espontâneo traduz exactamente a busca fundamental de Alberto Caeiro: Nasceu em em 1889, em Lisboa, e morreu em 1915, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase nenhuma: apenas a instrução primária. Era de estatura média e frágil, mas não o aparentava. Era louro e de olhos azuis. Ficou órfão de pai e mãe muito cedo e deixou-se ficar em casa a viver dos rendimentos. Vivia com uma velha tia-avó. Escrevia mal o português. Foi o pretenso mestre de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis.  Era anti-metafísico, menos culto e complicado do que R. Reis, mas mais alegre e franco.
  “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
   Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
   Mas porque a amo, e amo-a por isso,
   Porque quem ama nunca sabe o que ama
   Nem por que ama, nem o que é amar...”

terça-feira, 9 de novembro de 2010

DESCOBRINDO ... Camilo Pessanha (1867 - 1926)

Vida
Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo das liliáceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliáceas!
Calquem. Recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.
Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada... Que lumaréu!

Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.
Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, rebenta além.
_ E se arde tudo? _ Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, é para arder...

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'


Camilo  Pessanha nasceu  na cidade de Coimbra onde se formou em Direito. Foi para Macau onde exerceu a função de professor de Filosofia. Acometido de tuberculose, viciado em ópio, faleceu em Macau.
Foi, sem sombra de dúvidas, o maior e mais autêntico poeta simbolista português. Fortemente influenciado pela poesia do poeta francês Verlaine, a sua poesia influenciou vários poetas modernistas como, por exemplo, Fernando Pessoa. A sua poesia caracteriza-se pela musicalidade marcante e pela intensidade dramática. Os temas centrais dos seus poemas foram a ilusão, a dor, o pessimismo, o exílio  e a desilusão em relação à Pátria distante,  que estão muito presentes em "Clepsidra" considerada a sua obra mais importante.

sábado, 6 de novembro de 2010

VEM SENTAR-TE COMIGO LÍDIA

 Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
    E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
    Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
    Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
    Pagã triste e com flores no regaço.
 Ricardo Reis - Heterónimo de Fernando Pessoa
A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurista triste, pois defende o prazer como caminho para a felicidade. Apesar deste prazer que procura e a felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade. Sente que tem de viver em conformidade com as leis do destino, indiferente à dor, numa verdadeira ilusão da felicidade.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa (1888 - 1935) - Nasceu e morreu em Lisboa. Passou uma parte da infância e da adolescência em Durban, na África do Sul. De regresso a Lisboa frequentou o Curso Superior de Letras que abandonou antes de terminar o 1º ano.
A sua genialidade como poeta coloca-o, para alguns, ao nível de Camões. Talvez baste dizer que era tão grande a sua genialidade que, não cabendo num único poeta ele inventou várias distintas personalidades para, através delas criar diferentes expressões da sua poesia. Concebeu 27 heterónimos, dos quais se destacam os três principais: Alberto Caeiro; Álvaro de Campos; Ricardo Reis.

sábado, 30 de outubro de 2010

A FRESCURA



Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que'eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ESQUEÇO DO QUANTO ME ENSINARAM



Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.

Alberto Caeiro, in "Fragmentos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, 24 de outubro de 2010

Soneto

Passou o Outono já, já torna o frio...
  - Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
 - O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias, 
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
  - E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...


Camilo Pessanha _ Nasceu em Lisboa em 1826. Concluiu o curso de Direito na Universidade de Coimbra em 1891. Em 1894 radicou-se em Macau, onde faleceu em 1926. Aí ensinou Filosofia no liceu local. Poeta do mais genuíno  simbolismo português, a sua poesia revela um intimismo extremo e uma profunda melancolia. Recorreu ao inebriamento do ópio, refugiando-se  na ligação afectiva da sua companheira chinesa. Os seus poemas são de uma grande perfeição formal. Escrevia para si próprio, nunca cuidando de divulgar a obra que foi construindo e que só foi organizada e publicada em 1969 em dois volumes organizados pela escritora Ana de Castro Osório, em dois volumes: "Clepsidra" e "Outros Poemas".

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

FIDELIDADE

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como com a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais do que um momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa menhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena (1919-1978)- Nasceu na cidade de Lisboa, licenciou-se em engenharia na cidade do Porto. Exilou-se no Brasil, onde leccionou literatura e adquiriu a nacionalidade brasileira. Depois mudou para os Estados Unidos, onde leccionou Literatura Portuguesa e Brasileira em universidades do Wisconsin e da Califórnia, onde faleceu.  Deixou vasta obra como ensaísta, dramaturgo e historiador da cultura. Mas foi principalmente como poeta, de vasta obra publicada, que se arvorou à condição de um dos maiores poetas em língua portuguesa.

sábado, 16 de outubro de 2010

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal, 
um incêndio.
Outras, 
orvalho apenas.


Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos e beijos, 
as águas estremecem.


Desamparadas, inocentes, 
leves.
Tecidas são de luz 
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.


Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim, 
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, pseudónimo escolhido pelo poeta que, nasceu em Póvoa da Atalaia, concelho de Fundão, em 19 de Janeiro de 1923. Viveu na cidade do Porto a maior parte da sua vida, desempenhado as funções de funcionário dos Serviços Médico-Sociais. A cidade concedeu-lhe o título de cidadão honorário e nela foi criada uma Fundação com o seu nome. Aí morreu em 13 de Junho de 2005. É, sem sombra de dúvida, um dos maiores poetas contemporâneos da língua portuguesa. 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Poema das coisas belas

 António Gedeão é o pseudónimo de Rómulo de Carvalho, que exerceu a actividade de docente de Físico-Químicas no ensino liceal .
Revelou-se como poeta apenas em 1956, com  "Movimento Perpétuo", a que se seguiram outras obras  como "Teatro do Mundo" (1958), "Máquina de Fogo" (1961), "Poema para Galileu" (1964), "Linhas de Força" (1967), "Poemas Póstumos" (1983), "Novos Poemas Póstumos" (1990). A sua poesia que foi reunida em "Poesias Completas" (1964), teve fontes de inspiração  heterogéneas mas articuladas de modo original. Nelas conseguiu comunicar o sofrimento e a solidão humana, muitas vezes com recorrendo a um registo algo  irónico. Alguns dos seus textos poéticos foram amplamente divulgados através de músicas de intervenção, como no caso, muito conhecido, do poema "Pedra Filosofal".
  Na data em que celebrou o seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago de Espada. 


As coisas belas,
as coisas que deixam cicatrizes na memória dos homens,
porque motivo serão belas?
E belas, para quê?
As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivo são belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama as cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do Sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são belas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
porque direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

ANTÓNIO GEDEÃO