quarta-feira, 3 de abril de 2013
A INVENÇÃO DO AMOR
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
...
É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
Daniel Filipe
domingo, 31 de março de 2013
O vermelho por dentro
Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar é
negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro.
Os corpos eram negros
sobre o mar a água era de noite
não se via o vermelho por dentro
os corpos não se viam
eram barcos com os ventres todos negros
e as línguas eram de águas muito rentes
A sangue não sabia
não se via o vermelho por dentro
o céu a água envolvia
tudo envolvia nos vermelhos dentros
e os mares todas as noites estavam negros
negros por dentro
E a água volvia pelo céu tão negra
e à noite por dentro do mar todo vermelho
a noite era vermelha
e os barcos negros por dentro
E nos corpos a água negra era vermelha por dentro
e eles estavam envolvidos
e
Ana Hatherly
sábado, 30 de março de 2013
Não o Sonho
Talvez
sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.
Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.
Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"
quarta-feira, 27 de março de 2013
Poema em linha recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
domingo, 24 de março de 2013
Na idade dos porquês
Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...
Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.
É a luta professor
a luta em vez de amor.
Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.
Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.
Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...
E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.
Alice Gomes (1946)
quinta-feira, 21 de março de 2013
AMANECER DE PRIMAVERA
Esta luz,
esta luz renaciente y olvidada,
envuelta en mil olores y el zumbido de abejas
que se ha enseñoreado del jardín,
está llenando de pájaros mi alma,
de cantos mi garganta, de alegría
el costoso vivir de la jornada.
Me crece la hierba en los zapatos,
me levantan los rayos
de un sol naciendo sin barreras,
un cielo de azul que se despierta
en la paleta de
niño sin pasado.
La mimosa,
entre ramas de flores desvaídas,
atesora los mínimos cobijos, nidos
de paja, de hojarasca, dejadas allí por el invierno,
por la mano paciente de los vientos,
por el latido esperanzado
de unas alas que nunca se detienen
y vuelven otra vez al sueño del hogar.
Un caracol delata su camino
que aplauden mariposas de múltiples destellos.
Voy hasta la ventana, saco
los brazos a la vida
y vuelo hasta una flor que estaba a punto
de perder con el día su gota de rocío.
MOISÉS CAYETANO ROSADO
quarta-feira, 20 de março de 2013
Poema pouco original do medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O'Neill
domingo, 17 de março de 2013
A manhã raia. Não, a manhã não raia.
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma cousa abstracta, está, não é uma cousa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos manhã;
Por isso não há vantagem em pôr nomes errados às cousas,
Nem mesmo em lhe pôr nomes alguns.
Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos
quarta-feira, 13 de março de 2013
Acordar tarde
tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia
Al Berto, Horto de Incêndio
domingo, 10 de março de 2013
Vem, vento, varre
A José Rodrigues Miguéis
Vem vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.
Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.
Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.
Vem vento, varre!
Adolfo Casais Monteiro
quarta-feira, 6 de março de 2013
Cantiga
Descalça vai para a fonte,
Leonor pela verdura;
Vai formosa, e não segura.
A talha leva pedrada,
Pucarinho de feição,
Saia de cor de limão,
Beatilha soqueixada;
Cantando de madrugada
Pisa as flores na verdura:
Vai formosa, e não segura.
Leva na mão a rodilha,
Feita da sua toalha;
Com uma sustenta a talha,
Ergue com outra a fraldilha;
Mostra os pés por maravilha,
Que a neve deixam escura:
Vai formosa, e não segura.
As flores, por onde passa,
Se o pé lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem cor,
E de vergonha com graça;
Qualquer pegada que faça
Faz florescer a verdura:
Vai formosa, e não segura.
Não na ver o Sol lhe val
Por não ter novo inimigo,
Mas ela corre perigo
Se na fonte se vê tal;
Descuidada deste mal
Se vai ver na fonte pura:
Vai formosa, e não segura.
Francisco Rodrigues Lobo
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
A lição de estética
«Mas que beleza há na poesia?» Escuta, quando vês um grande amigo rodeado de mulheres, quando estás fascinado com a orquestra, e sob o reflector resplandecem as cores de uma deusa que desce seminua à plateia, onde tu estremeces, escondido em toda aquela multidão!, quando em noite escura e serena amigos dançam sem mulheres numa praça ao som de um acordeão e tu ficas à parte; pois bem, isso não é belo para ti? Também é belo para um velho que se chama crítico e acha beleza em muitas coisas e que até se aventurou a descobrir no mundo e talvez fora do mundo, coisas cada vez mais belas, mas que diz, com amor: «que belo é este poema!» E tu, tu olhas-me sem sequer me dares um beijo? Sandro Penna No Brando Rumor da Vida Assírio & Alvim 2003
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Da margem esquerda da vida
Da margem esquerda da vida Parte uma ponte que vai Só até meio, perdida Num balo vago, que atrai. É pouco tudo o que eu vejo, Mas basta, por ser metade, P'ra que eu me afogue em desejo Aquém do mar da vontade. Da outra margem, direita, A ponte parte também. Quem sabe se alguém ma espreita? Não a atravessa ninguém. Reinaldo Ferreira Poemas Estudo de José Régio Prefácio de Guilherme de Melo o chão da palavra/poesia
sábado, 23 de fevereiro de 2013
A recusa das imagens evidentes
I Rosa que só tens nexo Fora da tua imagem: Aqui és só reflexo Do universo unido No instante florido Que ofereces aos que te olham, Sem te ver, de passagem. II Girassol que na retina Da planície se dissolve. És a cor mais repentina Da aragem que te envolve. Girassol que só te viras Ao que não te fica perto E só giras porque giras Sobre o teu eixo secreto. . Girassol que sem volume Volume que sem contorno No despegar-se resume Só a pressa do retorno. III É um outono que não é outono. Tampouco a estação por que se espera Na dor de nos deixarern ao abandono As ninfas que são flores na primavera. . No entanto nas coisas o segredo De uma só alma põe a sabedoria Dando à terra repouso no arvoredo De que o cedro é a sagrada biografia. IV Há noites que são feitas dos rneus braços E um silêncio comum às violetas. E há sete luas que são sete traços De sete noites que nunca forarn feitas. Há noites que levarnos à cintura Como um cinto de grandes borboletas. E um risco a sangue na nossa carne escura Duma espada à bainha dum cometa. Há noites que nos deixam para trás Enrolados no nosso desencanto E cisnes brancos que só são iguais A mais longínqua onda do seu canto. Há noites que nos levam para onde O fantasma de nos fica mais perto; E é sempre a nossa voz que nos responde E só o nosso nome estava certo. Há noites que são lírios e são feras E a nossa exactidão de rosa vil Reconcilia no frio das esferas Os astros que se olham de perfil. V Há um cipreste que se dissimula No dia que nos leva pela mão. E entre brasas de sol que ardem na rua Uma pomba que faz de coração. . Voa: uma linha recta para a lua Em sonhos que nos levam de balão. Perversidade de uma paz futura Onde só chegaremos de caixão? E nada nos recorda esse futuro Escondido atrás das nuvens que trouxeram Ao nosso rosto os olhos prematuros Das órbitas reais que nos esperam. Natália Correia Poesia Completa Publicações Dom Quixote 1999
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Coração Polar
I
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre (n. 1936)
in Poemas de Amor
Organização de Inês Pedrosa
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre (n. 1936)
in Poemas de Amor
Organização de Inês Pedrosa
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
À minha mãe (reivindicação de uma formosura)
Escuta nas noites como se rasga a seda e ao chão cai sem ruido a chávena de chá como uma magia tu que só palavras doces tens para os mortos e um ramo de flores levas na mão para esperar a Morte que cai do seu corcel, ferida por um cavaleiro que a agarra com os seus lábios brilhantes e pelas noites chora pensando que o amavas, e diz sai ao jardim e contempla como caem as estrelas e falemos em sussurro para que ninguém nos escute vem, escuta-me falemos dos nossos objectos tenho uma rosa tatuada na face e um bastão com punho em forma de pato e dizem que chove por nós e que a neve é nossa e agora que o poema morre digo-te como uma criança, vem construí um diadema (sai ao jardim e verás como a noite nos envolve) Leopoldo María Panero Poemas do manicómio de Mondragón Alma Azul
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Ainda ontem pensava que não era
Ainda ontem pensava que não era mais do que um fragmento trémulo sem ritmo na esfera da vida. Hoje sei que sou eu a esfera, e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim. Eles dizem-me no seu despertar: " Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia sobre a margem infinita de um mar infinito." E no meu sonho eu respondo-lhes: "Eu sou o mar infinito, e todos os mundos não passam de grãos de areia sobre a minha margem." Só uma vez fiquei mudo. Foi quando um homem me perguntou: "Quem és tu?"
Kahlil Gibran Areia e Espuma Coisas de Ler
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Dava a última camisa por um poema
Dava a última camisa por um poema.
Domingo ao fim da tarde só restam cinzas.
Todos. Tudo inteiramente consumido. Tudo,o quê?
Segunda, sobrava alguma palavra intacta na lareira?
Terça
tão comprida como um ano
quarta, outra vez a esperança
Não, sem poema não se pode viver!
Quinta a memória entra em pânico
A pouca claridade que restava anoiteceu
também na sexta as vagonetas com o meu minério
perdem-se no túnel.
Sábado:
trabalho em vão!
Domingo tudo recomeça e voltava a dar
a última camisa por um poema
Jan Kostra
Eslováquia
TRAD.: ERNESTO SAMPAIO
Domingo ao fim da tarde só restam cinzas.
Todos. Tudo inteiramente consumido. Tudo,o quê?
Segunda, sobrava alguma palavra intacta na lareira?
Terça
tão comprida como um ano
quarta, outra vez a esperança
Não, sem poema não se pode viver!
Quinta a memória entra em pânico
A pouca claridade que restava anoiteceu
também na sexta as vagonetas com o meu minério
perdem-se no túnel.
Sábado:
trabalho em vão!
Domingo tudo recomeça e voltava a dar
a última camisa por um poema
Jan Kostra
Eslováquia
TRAD.: ERNESTO SAMPAIO
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
A mágoa é um vício
A mágoa é um vício, a ele volto
pelas madeiras desta casa, as memórias
são mais que os sinais pendurados
ao longo das paredes, não descrevo
o que vejo. O que sinto quase
está no silêncio, deixa de ser tempo
o tempo da noite, nos papéis
há desenhos que o matam, pontos
ganhos, contas de somar, fáceis
artimanhas evitando as palavras. Nada
difere de como ponho a mão na testa,
de como se afasta o sol para trás
dos castanheiros. Tento dizer
que sou como vós, leves amantes
de suaves lazeres, contradigo, desminto,
nada acontece. Para o dia de hoje
um pequeno esboço de tristeza, derrota
de cumprir, tarefa de vencer, antes
da noite os ombros, as rugas, terão
significado preciso. Só o recomeço
será tempo de sorrisos.
(Gestos de miradoiro)
Helder Moura Pereira (1949)
Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea
Um Panorama
Organização de
Alberto da Costa e Silva
Alexei Bueno
Lacerda Editores
1999
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
A roupa envolve-nos
A roupa envolve-nos a paragem do mar cresce contigo a língua e o sentido tudo anda tão ocupado tão cansado e destruído que a roupa em torno morre como um foco de ruído O movimento cerca esta mudez o mar desidratado é o abismo onde revives Viste os vales instáveis do mar mas para que é perguntar senão que se fez de ti O fogo sob as vozes que não ouves A língua vive ainda? Inscrevo na memória tumefacta mais uma imagem Esses corpos nascem O que posso dizer para cobri-los? Ouves? Está comigo a mortalidade da tua vida Como falar contigo? Mas o som produzido era tanto que as cordas se formavam com a sua saída retomavam a forma destruída enquanto tudo o que te dizia dividia um som tempestuoso Na ocasião da queda desses algum olha as áreas correspondentes no mar volta transforma-se é um sinal de contradição e sob a chuva contínua de relâmpagos revive Porém o som inibe-te prossegues sem segurança o canto a turva cítara vence-te não o canto repetido Essas cordas do peito já distensas submetem-se ao silêncio poderias escolhê-las porém sempre repetes os nomes desses corpos a mudez intimida-te assim a poesia nasce com o rumor dos próprios corpos com o bater dos nomes entre os ombros tão dóceis mar de músculos mudos o coração do corpo repetindo os nomes turvos Como é possível termos esquecido a linguagem? Comparámos os corpos Se os descrevo agora que deixámos de falar esqueço a igualdade e nela cessa a possibilidade de falar É um erro a cidade alguma vez a cantaste? Mas já não é possível a verdade é que definitivamente nela morres Por isso escolherás o teu estilo de novo por palavras errarás Na praia exterminada não pudemos cantar a liberdade sobre o teu corpo correm turvas asas de entre as pedras levantas a cabeça enquanto cais Depois a roupa gera e espalha a escuridão cada corpo isolado se transforma sob as asas que o cobrem Desencontramo-nos a terra recomeça a deter-te preciso de dizer esse teu nome Mas não ouças a minha fala transformada Gastão Cruz poesia 1961-1981 com três desenhos de Manuel Baotista o oiro do dia
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Caia a grande neblina
Sob a grande neblina livre e monge mil e quinhentas donzelas protegem o meu pulso mineral e morto. Procuro no meu sangue. Encontro? Encontro, meu amor, encontro? Alto mar as imagens acordam uma surpresa. Braço no braço uma meiguice sagra-me pajem das tuas mãos. Dormem. Deixá-lo! Mas já a minha voz acorda os esponsais. Brilha que brilha medito: melhor se me afigura a noite sem termo. Levanto o teu retrato ao plano dos meus olhos - assim cheguei porque suceda em breve agitado e nervoso o meu corpo e ainda verás nele claro espelho do teu esplendor. Fernando Alves dos Santos in A Única Real Tradição Viva Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa de Perfecto E. Cuadrado Assírio & Alvim 1998
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Um Amigo
Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.
Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,
onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.
Eduardo Bettencourt Pinto
da outra margem
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.
Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,
onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.
Eduardo Bettencourt Pinto
da outra margem
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Caminho sem pés e sem sonhos
| Caminho sem pés e sem sonhos só com a respiração e a cadência da muda passagem dos sopros caminho como um remo que se afunda. os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes para que a elevação e a profundidade se conjuguem. avanço sem jugo e ando longe de caminhar sobre as águas do céu. Daniel Faria de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998) |
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Caminho
Tenho sonhos cruéis; n'alma doente Sinto um vago receio prematuro. Vou a medo na aresta do futuro, Embebido em saudades do presente... Saudades desta dor que em vão procuro Do peito afugentar bem rudemente, Devendo, ao desmaiar sobre o poente, Cobrir-me o coração dum véu escuro!... Porque a dor, esta falta d'harmonia, Toda a luz desgrenhada que alumia As almas doidamente, o céu d'agora, Sem ela o coração é quase nada: Um sol onde expirasse a madrugada, Porque é só madrugada quando chora. Camilo Pessanha Clepsidra e outros poemas Colecção Poesia Edições Ática 1973
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Auto-retrato
Este retrato tem barulho de escada rolante que se cala em movimento o chão dos achados rodeia o mapa de flores pesadas e os degraus germinam nos pés à cata de gente média passageira imóvel dos factos cresce com o excesso latino a morte vitalícia de um céu mecânico a espera é d'aço menino como um século corporal vestido de santos e arcanjos entre os pardais da cama os troféus escondem os donos e pensam grosso à sobremesa sou um homem casado com dois ou três princípios que não têm fim. Boaventura de Sousa Madison e Outros Lugares Edições Afrontamento 1989
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
A Traição
quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse
Alexandre O'Neill (1924-1986)
Poesias Completas
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse
Alexandre O'Neill (1924-1986)
Poesias Completas
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Souvenir
Como é doce e triste por vezes ouvir
Algum som antigo trazido à memória,
E ver, como em sonhos, algum rosto querido,
Trecho de paisagem, campo, rio ou vale,
Lembrança tão breve, triste e agradável,
Algo que recorde o tempo bom da infância.
Então em dor feliz as lágrimas brotam,
Esse choro subtil que na mente aguarda,
E tudo o já sentido - campo, rio e voz -
Toma outro alcance, na memória adornado,
E lento emerge em fantasiosa luz.
Mas, ai, eis que acordo p'los sonhos traído!
O que sinto e ouço apenas ilusão,
Porque o passado não pode regressar.
Estes campos não são os que eu conheci,
Os sons não são os que ouvi; tudo passou
E tudo o que é passado, ai, não volta mais.
Alexander Search
Poesia
edição e tradução
Luísa Freire
Assírio & Alvim
Obras de Fernando Pessoa
1999
sábado, 26 de janeiro de 2013
Como As Espigas
Finalmente (embora
saibas que não há
nem fim nem princípio):
deves dizer ainda
que há uma rosa de espuma
no teu peito e que
o seu perfume
não se esgota. E que lá
também existe
uma fonte onde bebem
as flores silvestres. Mas não
humildes, como ias
chamar-Ihes: altas
como as espigas
do vento, que no vento
se esquecem e que no vento
amadurecem.
Albano Martins
in Escrito a Vermelho
saibas que não há
nem fim nem princípio):
deves dizer ainda
que há uma rosa de espuma
no teu peito e que
o seu perfume
não se esgota. E que lá
também existe
uma fonte onde bebem
as flores silvestres. Mas não
humildes, como ias
chamar-Ihes: altas
como as espigas
do vento, que no vento
se esquecem e que no vento
amadurecem.
Albano Martins
in Escrito a Vermelho
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
A Invisibilidade de Deus
dizem que em
sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
Al-Berto
O Medo
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
Al-Berto
O Medo
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Apalpa um violino
Apalpa um violino com teus dentes. Corrige a corriqueira soma dos acordes. Medicamenta o mundo.Ó bruxo semanal com teus abutres, teu mocho dado à gula dos mistérios, quem paga esta consulta? quem sobe, arfando, os degraus da febre? Teu beijo muge a tua boca sangra o teu pescoço azul desponta no meu peito.A esta hora exacta os deuses parem em lugares recônditos. Seus ovos lentos crescem no coração dos tontos.Refreias toda a fala sustenida e os campos taciturnos nem se movem. Ó mago indolente entre os meus dedos.Cabrito pouco astuto em devaneios. Os animais famintos Com seu crespo ondular Percorrem-te os inventos, E nós, Os instrumentos. A rede musicada Das tuas mãos de merda. Armando Silva Carvalho "Os Ovos de Ouro"
domingo, 20 de janeiro de 2013
PROGRAMA
Não queremos poesia de género algum,
Queremos truques mágicos de saco,
Procuramos tapar na existência um fatal buraco.
E apesar de esforço insano não tapamos nenhum.
Mas que sabeis vós outros do secreto aspirar,
Dos soluços de divina histeria que em gargantas choram,
Quando, plenamente absorvidos pelo haxixe da alma elementar,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Eoneamente os deuses moram?
Wilhelm Klemm
A Alma e o Caos
100 poemas expressionistas
selecção e tradução de
João Barrento
Queremos truques mágicos de saco,
Procuramos tapar na existência um fatal buraco.
E apesar de esforço insano não tapamos nenhum.
Mas que sabeis vós outros do secreto aspirar,
Dos soluços de divina histeria que em gargantas choram,
Quando, plenamente absorvidos pelo haxixe da alma elementar,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Eoneamente os deuses moram?
Wilhelm Klemm
A Alma e o Caos
100 poemas expressionistas
selecção e tradução de
João Barrento
sábado, 10 de novembro de 2012
ARRE, QUE TANTO É MUITO POUCO!
| ARRE, que
tanto é muito pouco! Arre, que tanta besta é muito pouca gente! Arre, que o Portugal que se vê é só isto! Deixem ver o Portugal que não deixam ver! Deixem que se veja, que esse é que é Portugal! Ponto. Agora começa o Manifesto: Arre! Arre! Oiçam bem: ARRRRRE! Álvaro de Campos (1890-?) Poesias |
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
A CHAVE INGLESA
| A chave inglesa |
Era um corpo inteiramente português. Transido de ternura o óleo das suas mãos protegia-me o coração. Não sei que mecanismo despertava em si quando chorava, fazia crescer a relva, meus dentes indecisos como crias corriam e devoravam. Escreveu-me duas cartas em cima de um tractor e nelas descrevia em frases simples o modo tortuoso que me fez traidor. Armando Silva Carvalho As Escadas não têm Degraus Livros Cotovia |
domingo, 4 de novembro de 2012
A MENINA PÓ DE ARROZ
A menina pó de arroz, Nascida à beira do mar Com o oceano nos olhos E com sorrisos de lua Nos seus lábios pequeninos Que nunca ninguém beijou, A menina pó de arroz, Com seus cabelos de cobre Onde o vento vem brincar, Assoma à sua janela P'ra ver a noite estrelada, Para ouvir os sons da noite, Para beber o luar. Para ter em suas mãos Macias, longas e brancas, A noite tépida e branda, A velha noite calada. A menina pó de arroz, Que por uma abreviatura Do seu nome arrevesado É chamada entre família Por um nome miudinho De marca de pó de arroz, Com seu corpinho de fada Que saiu de alguma fonte Que há pouco perdeu o encanto, Com a cabeça nas mãos, Enquanto na casa dormem, Veio pôr-se na janela Para que a noite a beijasse. A menina pó de atroz Estará enamorada? António Rebordão Navarro As Três Meninas e Outros Poemas Poemas (1952 - 1982) Imprensa Nacional Casa da Moeda |
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
A DELICADA MAJESTADE
| Um dia poderás chegar, tu que nunca chegas porque não és um tu ou porque chegas sempre em não chegares. Subi um dia por uma escada silenciosa e em torno era um pomar branco, tranquila maravilha e eu senti, eu vi, adivinhei a divindade amada, a soberana e delicada majestade. Que suavidade de oriente, que suave esplendor! Era o fulgor de um sono límpido, entre olhos verdes, entre mãos verdes. E num repouso de oiro adormecido era quase um rosto Antiquíssimo e inicial. Contemplava a quietude de um imenso nenúfar e a fragância era quase visível como um mar entreaberto. Era um rio detido ou uma tersa nuca ou um braço estendido que descansa entre ribeiros primaveris ou era antes a serena felicidade e era uma boca da terra que não cantava que não dizia o silêncio ardente que no peito de espuma cintilava. António Ramos Rosa ACORDES, QUETZAL EDITORES 1990 |
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