terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pelo Alto Alentejo - 2

Meto butes á inteira planura.
Esboroa-se a terra. Lá pra trás,
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui, na aparência, só a paz.

Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco(ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade, mas, aqui,
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá, como o álibi
da paisagem que a outras me transporta.

Hei-de voltar pra ler e presumir,
quando Alentejo se puser a rir ...

in: "Entre a Cortina e a Vidraça" (1972)


Alexandre O'Neill (1924–1986) Nasceu em Lisboa numa família com origens irlandesas. Frequentou a Escola Náutica, trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian e foi técnico de publicidade. É um dos grandes poetas da língua portuguesa.
No ano de 1947 O'Neill, Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo. Por volta de 1948, fundou com o poeta Cesariny, com José-Augusto França, António Pedro e Vespeira, o Grupo Surrealista de Lisboa. Este grupo acabou por se cindir em dois grupos que se tornaram rivais, digladiando-se em ataques mútuos. Mas, a feição surrealista manteve-se como um dos traços mais marcantes dos textos de O’Neill.
A sua poesia caracteriza-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, à vida mesquinha do quotidiano, vista sem dramatismos, ironicamente relatada e comentada, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como melhor forma de a caricaturar. Este humor é, muitas vezes, manifestado numa linguagem que parodia os discursos estereotipados, oficiais ou publicitários, ou a própria organização social. Na sua linguagem integra o calão, a gíria, os lugares-comuns pequeno-burgueses, as onomatopeias e mesmo os neologismos que inventava com grande espontaneidade.

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