São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde
no corpo do seu gémeo Penetra inutilmente
na terra essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende
na húmida manhã dos castanheiros
Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco Tu
que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado
Gastão Cruz
sexta-feira, 9 de maio de 2014
ÁRVORES
segunda-feira, 5 de maio de 2014
SONETO DE EURYDICE
Erin Cone
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 1 de maio de 2014
COM DIREITO À LIBERDADE !!!!!!!!!!!!!!!..........
Liberdade
Liberdade,
que estais no céu...
Rezava o
padre-nosso que sabia,
A pedir-te,
humildemente,
O pio de cada
dia.
Mas a tua
bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade,
que estais na terra...
E a minha voz
crescia
De emoção.
Mas um
silêncio triste sepultava
A fé que
ressumava
Da oração.
Até que um
dia, corajosamente,
Olhei noutro
sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear,
enfim,
O pão da
minha fome.
— Liberdade,
que estais em mim,
Santificado
seja o vosso nome.
Miguel
Torga
domingo, 27 de abril de 2014
PAI
Vou tentar escrever
As palavras
que nunca te disse
Palavras
que
Sinto-o…
Gostarias de ter dito
Mas
Não disseste
Que lástima!...
Não termos querido
Ou conseguido
Cumprir essa vontade!
Que pena
Pai!...
Ficou entre
nós
Este vazio e esta culpa
Por não termos ousado
Fazer o que devia ser feito
E que era tão importante
E que era tão necessário
Como essa culpa dói!...
E parece que seria tão fácil
Dizeres
Quanto me querias
Para te poder dizer
Quanto te amava
Parece agora
Que seria tão fácil!...
Não parece, Pai?
ABRILONGO (27 DE ABRIL DE 2014)
sexta-feira, 25 de abril de 2014
CANTAR ABRIL - 25
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello
Breyner Andresen
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