sexta-feira, 9 de maio de 2014

ÁRVORES


São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde

no corpo do seu gémeo Penetra inutilmente
na terra essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende

na húmida manhã dos castanheiros
Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco Tu

que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado



Gastão Cruz

segunda-feira, 5 de maio de 2014

SONETO DE EURYDICE


erin cone4.jpg
Erin Cone

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Mello Breyner Andresen


quinta-feira, 1 de maio de 2014

COM DIREITO À LIBERDADE !!!!!!!!!!!!!!!..........

 

Liberdade



Liberdade, que estais no céu...

Rezava o padre-nosso que sabia,

A pedir-te, humildemente,

O pio de cada dia.

Mas a tua bondade omnipotente

Nem me ouvia.



— Liberdade, que estais na terra...

E a minha voz crescia

De emoção.

Mas um silêncio triste sepultava

A fé que ressumava

Da oração.



Até que um dia, corajosamente,

Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

Saborear, enfim,

O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,

Santificado seja o vosso nome.  



Miguel Torga

 

domingo, 27 de abril de 2014

PAI



            Vou tentar escrever
As palavras
que nunca te disse

            Palavras que
Sinto-o…
Gostarias de ter dito
Mas
Não disseste

            Que lástima!...

Não termos querido
Ou conseguido
Cumprir essa vontade!

            Que pena Pai!...

            Ficou entre nós
Este vazio e esta culpa
Por não termos ousado
Fazer o que devia ser feito
E que era tão importante
E que era tão necessário

Como essa culpa dói!...

E parece que seria tão fácil
Dizeres
Quanto me querias
Para te poder dizer
Quanto te amava

Parece agora
Que seria tão fácil!...

Não parece, Pai?

ABRILONGO (27 DE ABRIL DE 2014)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

CANTAR ABRIL - 25



25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen