quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Não Posso Adiar o Amor



Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"
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Morreu António Ramos Rosa

Tinha 88 anos, e uma vasta obra na poesia, ensaio e tradução. António Ramos Rosa, algarvio, morreu há dois dias, em Lisboa.

 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Morreu António Ramos Rosa



Tinha 88 anos, e uma vasta obra na poesia, ensaio e tradução. António Ramos Rosa, algarvio, morreu esta tarde em Lisboa.

Os anjos que conheço são de erva e de silêncio

Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros

O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.

Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?




António Ramos Rosa
Ciclo do Cavalo - 1975
in Antologia Poética
Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

POETAR FILOSOFANDO – FILOSOFAR POETANDO (IV)



Saber Avaliar as Situações

O que perturba os homens não são as coisas, mas os juízos que os homens formulam sobre as coisas.
A morte, por exemplo, nada tem nada de temível.
Sócrates, quando dele se aproximou a morte, não a considerou algo terrível.
No juízo que fazemos da morte é que reside o aspecto terrível da morte.
Quando somos hostilizados, contrariados, perturbados, atormentados e magoados, não devemos assacar as culpas aos outros. Quando muito, devemos atribuir as culpas a nós próprios; isto é, aos nossos juízos pessoais mais íntimos. Acusar os outros das nossas infelicidades é tomar uma atitude própria de um ignorante. Mas, responsabilizar-se a si próprio por todas as contrariedades é coisa própria de um homem que começa a ter consciência de si.
E se não se culpabilizar ninguém, nem tão pouco a si próprio, então, sim: Então já podemos considerar-nos como verdadeiramente sábios.

Epicteto, in 'Manual'
 

domingo, 15 de setembro de 2013

POETAR FILOSOFANDO – FILOSOFAR POETANDO ( III )



Ponderar as Dificuldades

Face a qualquer acção, pondera os antecedentes e as consequências.
Só depois – mas só depois – começa a executá-la.
Caso não procedas assim, grande será o teu ânimo logo no começo, porque não cuidaste das dificuldades que a seguir se apresentam.
Tempo depois, quando essas dificuldades – uma a uma – se apresentarem, abandonarás a tua tarefa de maneira vergonhosa.

Epicteto, in 'Manual'

terça-feira, 10 de setembro de 2013

POETAR FILOSOFANDO – FILOSOFAR POETANDO ( II )



A Justa Medida

As necessidades do corpo são a justa medida do que cada um de nós deve possuir.
Por exemplo: o pé só exige um sapato à sua medida.
Se assim considerares as coisas, respeitarás, em tudo quanto faças, as devidas proporções. Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira de agir, necessariamente desregrado como se um precipício te atraísse.
O sapato é também exemplo deste estado de coisas: Se fores para além do que o teu pé necessita, não tardará muito que anseies por um sapato dourado, depois por um sapato de púrpura e, finalmente, por um sapato bordado.
Uma vez que menosprezes a justa medida, deixarás de ter qualquer limite que torne justos os teus propósitos.

Epicteto, in 'Manual'

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

POETAR FILOSOFANDO – FILOSOFAR POETANDO ( I )



Saber Pegar na Asa Certa

Qualquer coisa tem duas asas: uma que nos permite que a levemos connosco, a outra que tal intenção não nos facilita.
Se o teu irmão tem mau feitio, não o chames a ti levando a mão à asa que se manifesta de modo errado.
Por aí, é-te impossível levar a bom termo o teu propósito.
Toma-o antes pela asa boa, pela mão que se não recusa à tua mão - e se te lembrares de que ele é teu irmão, que foi amamentado pelo mesmo seio em que foste amamentado, logo verás que o podes chamar a ti.

Epicteto, in 'Manual'